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Vida e morte, amor e guerra

Publicado por Helga Rackel em Março 24, 2008

Tereza Batista apresenta aos leitores mais uma personagem fascinante de Jorge Amado. Uma mulher de luta, guerreira da vida, obstinada a sobreviver em meio à pobreza e à crueldade. Aos 13 anos, conhece Justiniano Duarte da Rosa como seu senhor e carrasco. Violentada, a menina rende-se às suas ordens pela imposição do medo. Após dois anos de martírio na casa e no armazém de seu algoz, Tereza conhece o amor e o prazer nos braços do jovem Daniel. Flagrando a traição,Tereza Batista o capitão tenta agredi-la, ameaçando-os de morte. Em defesa, a menina mata Justiniano. Julgada e presa, sofre mais uma decepção: quem conheceu seu amor, não se importou em defendê-la. Prisão, convento e bordel. Este foi o caminho pelo qual Tereza Batista percorreu até conhecer um novo amor, doutor Emiliano Guedes. Sexagenário, rico e poderoso na região de Aracaju, ele a toma como amante e leva-a para morar na Estância. Vivem seis anos de descobertas, amor e prazer. Momentos felizes para a menina que se fez mulher. Logo depois da morte do doutor, a morena cor de cobre vai para Bahia. O coração, antes triste e desolado, volta a palpitar de esperança ao conhecer Januário Gereba. A chama do amor reacende sua alma. Porém, seu novo homem precisava seguir viagem. O navegante vai embora em sua barcaça, deixando-a mergulhada no sonho de um reencontro. Tereza sobrevive à peste, fome e polícia. Ávida em ajudar ao próximo, vence a epidemia de varíola no interior da Bahia. Sofre maus tratos, mas conhece um bom amigo, Almério, cujos sentimentos não eram correspondidos pela bela morena. Entretanto, ele ajuda a amada e amiga a reencontrar seu amado Janu-bem-querer. Cansada de guerra, venceu até a morte. Renasceu para a vida.

A obra Tereza Batista cansada de guerra é um romance cuja linguagem tem características da prosa regionalista. Sua heterogeneidade envolve o retrato sociolingüístico da realidade do povo nordestino brasileiro; como também sua fala popular, através de provérbios, cordéis, cultura e religiosidade. Dessa forma, a linguagem coloquial é o seu registro lingüístico, apresentando uma leitura em que predominam os tipos textuais narrativo, descritivo e expositivo. Estes são identificados pela presença dos diálogos, das descrições minuciosas dos personagens e ambientes do enredo, além da exposição de idéias, desejos e realidades vivenciadas pelos personagens.

Assim como muitas obras literárias de Jorge Amado, Tereza Batista cansada de guerra revela a vida de uma mulher que, com guerra, conquistou o seu espaço no contexto social. Narra a transformação da menina em mulher, lutando contra a submissão, a violência e a miséria, em busca da liberdade e do amor verdadeiro. Trata-se de um livro onde o autor é inspirado pelo povo e escreve para o povo, revelando as vozes da gente simples e humilde a qual, vivendo de forma trágica, nutre a esperança por um dia melhor.

Tereza Batista cansada de guerra

CURIOSIDADE: Publicado em 1972, o livro foi escrito nos meses de março a novembro, na cidade da Bahia. Sua 1ª edição, com 100.000 exemplares e 462 páginas, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, integrava a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, décimo nono tomo, volume XIX. Com a extinção da empresa paulista, após a quarta edição, em agosto de 1974, a Editora Record, do Rio de Janeiro, investe na condição de exclusividade. A partir da 5ª edição, de 1976, a editora passou a publicá-lo com as seguintes particularidades: 421 páginas, formato em 21cm, capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Calasans Neto, modinha de Dorival Caymmi e retrato do autor por Jordão de Oliveira. Foi traduzido em alemão (Viena-Áustria), espanhol, francês, inglês, italiano, tcheco, ucraniano. A obra literária de Amado teve inúmeras adaptações para teatro, televisão e cinema, usada também como tema de escolas de samba por todo o Brasil. Seus livros foram traduzidos em 55 países, em 49 idiomas, existindo exemplares em braille e em fitas gravadas para cegos. Destacam-se: O país do Carnaval (1931); Cacau (1933); Mar morto (1936); Capitães da areia (1937); A estrada do mar (1938); ABC de Castro Alves (1941); O cavaleiro da esperança (1942); Gabriela, Cravo e Canela (1958); Dona Flor e seus dois maridos (1966); Tieta do Agreste (1977).

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Somos nordestinos, somos brasileiros

Publicado por Helga Rackel em Janeiro 21, 2008

 

Trio nordestino O Nordeste é conhecido pelo verão da seca e da praia. Visto como a caatinga dos brasileiros e o balneário dos estrangeiros, a região nordestina carrega consigo o estigma de um povo sofrido de fome e de peste, raquítico de corpo e de mente. Apesar de suas belezas e de sua gente, em meio a esse paradoxo de estereótipos, infelizmente o que impera é o mal entendido transmitido por esses pré-conceitos definidos pela nação brasileira e, muitas vezes, pelo próprio nordestino.

Entretanto, castigar a imagem de uma terra tão rica em culturas não prejudica só o turismo, como muitos relacionam apenas a este setor, mas à auto-estima do seu povo também. O nordestino é como o restante do Brasil, ou seja, brasileiro por excelência. Possui suas mazelas, porém não perde suas belezas. Como todo o país, tem suas dificuldades e seus progressos.

As regiões se caracterizam por suas peculiaridades naturais, sociais, econômicas e culturais, todavia estão inseridas no contexto nacional: cada uma tem um pouco da outra. Há nordestino morando no Sul, sudestino no Norte etc. Gente que nasceu num lugar, mas cresceu em outro. Sangue cearense, porém cultura gaúcha – por exemplo. Por que criar estereótipos, então?

A alegria do nordestino não é piada para turista rir. A cultura de nossa gente não é artesanato para exportar. A comida do nordeste não é farofa com carne e baião-de-dois. Ser cearense não é ser “cabra-da-peste”. Nascer e viver no nordeste brasileiro é muito mais do que características simplórias e “coisificadas”; é orgulhar-se do passado, trabalhar o presente e acreditar no futuro. Nordestino é da serra, da praia, do sertão, do Brasil. Não só trabalha como estuda. Tem sofisticação e simplicidade. Permeia entre o bem e o mal de viver sem perder sua identidade.

Precisamos ter um novo olhar sobre o Nordeste, sem piedade ou soberba. Uma visão perspicaz de seu desenvolvimento e diversificação de culturas, não apenas como praia para os turistas ou sertão para os brasileiros. Enxergar o celeiro de artistas, doutores e literários que há. Analisar a pobreza, o analfabetismo e a seca; não como característica do Nordeste e sim, como problema do Brasil. Perceber na região a possibilidade de lançar mão dos preconceitos e acreditar que todos nós somos nordestinos, somos brasileiros.

 

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