Verblogando

O blog de todos os verbos

Meme literário

Escrito por Helga Rackel em Abril 3, 2008

É, aqui estou! Por conta das atividades acadêmicas (provas e trabalhos), as postagens não são freqüentes nesse momento. Mas, hoje é um dia especial: meu aniversário! Para registrar algo neste dia :D e demonstrar agradecimento pela gentil indicação do Jorge Alberto - Recanto das Palavras, aqui faço este meme. Confesso que é minha primeira vez. :) A brincadeira é indicar cinco autores de minha preferência. É difícil escolher… Vamos lá:

José de Alencar

O mestre que eu tive foi esta esplêndida natureza que me envolve, e particularmente a magnificência dos desertos que eu perlustrei ao entrar na adolescência, e foram o pórtico majestoso por onde minha alma penetrou no passado de sua pátria.

Ahhh… Como não falar do meu conterrâneo? :) José Martiniano de Alencar nasceu em 1829, no distrito de Messejana - hoje, bairro de Fortaleza, Ceará. Atuou como advogado, jornalista, deputado e ministro da justiça; além de ser um dos grandes romancistas brasileiros. Foi patrono da cadeira nº 23 da Academia Brasileira de Letras (ABL), a qual veio a ser ocupada por Jorge Amado. Por sinal, foi muito defendido por Machado de Assis para ocupar a de nº 1. Sobre José de Alencar escreveu Machado de Assis: “Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira. E não é só porque houvesse tratado assuntos nossos. Há um modo de ver e de sentir, que dá a nota íntima da nacionalidade, independente da face externa das coisas”. Por que citar José de Alencar? Porque um dos seus famosos clássicos, Iracema - Lenda do Ceará (1865), a última obra do indianismo romântico, foi o meu real ingresso no mundo da literatura. Iracema, a índia dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. (cap. 2). Um verdadeiro poema em prosa!

Guy de Maupassant

Fixando meus olhos sobre minha própria imagem refletida no espelho, acredito perder a noção de mim. Nesses momentos, tudo se atrapalha em meu espírito, e eu acho estranho não me reconhecer. É curioso ser o que sou, isto é, qualquer um. E eu sinto que, se esse estado durasse mais um minuto, eu me tornaria completamento louco. Pouco a pouco meu cérebro se esvaziaria de todos os pensamentos.

Escritor francês, Henri René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, no Castelo de Miromensil - Normandia. Considerado um escritor objetivista, Maupassant observava a realidade, tentando ser exato na forma de descrever a vida. Seus textos são espelho da hipocrisia francesa vivida naquela época. Por que citar Guy de Maupassant? Porque eu e Guy nos conhecemos na disciplina de Leitura e Produção Textual I, no 4º semestre do curso de jornalismo. Foi amor à primeira vista! :) Li seus maravilhosos contos e me envolvi de tal forma, que a professora até hoje, quando me encontra, diz que um faz lembrar o outro. Um de seus famosos contos, Bola de Sebo (1880), foi minha estréia. Baseado em fatos reais, o conto retrata a sociedade francesa no final do séc. XIX, subjugada pela ocupação dos alemães, após sua derrota na guerra franco-prussiana. Maravilhoso e bastante atual, comparando à nossa sociedade (apesar de não sermos franceses!).

Fiodor Dostoievski

Ame cada folha, cada raio de luz.
Ame os animais, ame as plantas, ame cada coisa.
Amando tudo, você perceberá o mistério de Deus em tudo.

Um dos maiores escritores da literatura russa, fundador do existencialismo, Fiodor Mikhailovich Dostoievski nasceu em 1821, em Moscovo. Inspirado pelo cristianismo protestante, seus textos são envoltos na relação do homem consigo, com o mundo e com Deus. Algo que reflete a real busca do ser (travado pela humanidade desde sua criação). Ler Crime e Castigo (1866), foi uma experiência instigante. Já tinha ouvido falar em Dostoievski, mas não imaginava quão extrordinária era sua obra. O livro narra a história de Rodion Raskólnikov em sua saga existencial e naturalmente humana. O jovem estudante comete um assassinato e passa a viver suas incapacidades, suas fraquezas em reconhecer a si, o mundo e a Deus. Esplêndido! ;)

José Saramago

Todos os meus livros partem do impossível!

Prêmio Nobel em 1998, José Saramago nasceu em 1922, de uma família de camponeses da província do Ribatejo, Portugal. Exerceu diversas profissões: serralheiro, desenhista, funcionário público e jornalista, antes de se dedicar só à literatura. Romancista contemporâneo, sua linguagem é uma maestria no tratamento da língua portuguesa. Seu estilo é muito interessante: não usa travessão ou dois pontos nos diálogos e sim, vírgulas. Mas não é difícil seguir seu rítimo. É um autor que escreve de forma crítica, irônica, cômica… sarcástica, dialogando com o leitor. Ler Saramago é uma experiência inédita. Nosso encontro surgiu quando descobri As intermitências da Morte (2005). De forma impressionante e criativa, ele nos revela esse personagem tão temido pela humanidade. “A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.” (pág. 107). Ótimo para discutir sobre as nuances da vida social e política; e claro, sem perder o humor! :D

Max Lucado

Escolho a paz… Viverei perdoado. Perdoarei para que possa viver.

Escritor e pastor evangélico norte-americano, Max Lucado nasceu no ano de 1955, em San Angelo. É um autor bastante conhecido no meio cristão. Suas obras possuem linguagem jovial e atraente, cuja abordagem vai além do que os olhos podem ver. Trata de forma clara, com toques de humor, da vida de Cristo e seus propósitos sem perder a realidade da natureza humana. Max nos apresenta um cristianismo diferente, sem religiosidade e sim, cheio de amor, paz, alegria e salvação. Sou leitora assídua de suas obras. Fomos apresentados através do livro Ele escolheu os cravos (2006). Fala sobre o amor de Cristo por mim e por você, revelando o por quê desse amor em cada detalhe da crucificação. É apaixonante! :)

Indico para participar do meme:

O Livreiro Assassino

Blog do Mel

Condenados à liberdade



P.S.: Não citei o ano da morte dos autores José de Alencar, Guy de Maupassant e Fiódor Dostoiévski porque - ao meu ver - todo escritor detentor de alguma obra marcante é eterno enquanto suas palavras ecoam ao longo do tempo e espaço. ;)

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Vida e morte, amor e guerra

Escrito por Helga Rackel em Março 24, 2008

Tereza Batista apresenta aos leitores mais uma personagem fascinante de Jorge Amado. Uma mulher de luta, guerreira da vida, obstinada a sobreviver em meio à pobreza e à crueldade. Aos 13 anos, conhece Justiniano Duarte da Rosa como seu senhor e carrasco. Violentada, a menina rende-se às suas ordens pela imposição do medo. Após dois anos de martírio na casa e no armazém de seu algoz, Tereza conhece o amor e o prazer nos braços do jovem Daniel. Flagrando a traição,Tereza Batista o capitão tenta agredi-la, ameaçando-os de morte. Em defesa, a menina mata Justiniano. Julgada e presa, sofre mais uma decepção: quem conheceu seu amor, não se importou em defendê-la. Prisão, convento e bordel. Este foi o caminho pelo qual Tereza Batista percorreu até conhecer um novo amor, doutor Emiliano Guedes. Sexagenário, rico e poderoso na região de Aracaju, ele a toma como amante e leva-a para morar na Estância. Vivem seis anos de descobertas, amor e prazer. Momentos felizes para a menina que se fez mulher. Logo depois da morte do doutor, a morena cor de cobre vai para Bahia. O coração, antes triste e desolado, volta a palpitar de esperança ao conhecer Januário Gereba. A chama do amor reacende sua alma. Porém, seu novo homem precisava seguir viagem. O navegante vai embora em sua barcaça, deixando-a mergulhada no sonho de um reencontro. Tereza sobrevive à peste, fome e polícia. Ávida em ajudar ao próximo, vence a epidemia de varíola no interior da Bahia. Sofre maus tratos, mas conhece um bom amigo, Almério, cujos sentimentos não eram correspondidos pela bela morena. Entretanto, ele ajuda a amada e amiga a reencontrar seu amado Janu-bem-querer. Cansada de guerra, venceu até a morte. Renasceu para a vida.

A obra Tereza Batista cansada de guerra é um romance cuja linguagem tem características da prosa regionalista. Sua heterogeneidade envolve o retrato sociolingüístico da realidade do povo nordestino brasileiro; como também sua fala popular, através de provérbios, cordéis, cultura e religiosidade. Dessa forma, a linguagem coloquial é o seu registro lingüístico, apresentando uma leitura em que predominam os tipos textuais narrativo, descritivo e expositivo. Estes são identificados pela presença dos diálogos, das descrições minuciosas dos personagens e ambientes do enredo, além da exposição de idéias, desejos e realidades vivenciadas pelos personagens.

Assim como muitas obras literárias de Jorge Amado, Tereza Batista cansada de guerra revela a vida de uma mulher que, com guerra, conquistou o seu espaço no contexto social. Narra a transformação da menina em mulher, lutando contra a submissão, a violência e a miséria, em busca da liberdade e do amor verdadeiro. Trata-se de um livro onde o autor é inspirado pelo povo e escreve para o povo, revelando as vozes da gente simples e humilde a qual, vivendo de forma trágica, nutre a esperança por um dia melhor.

Tereza Batista cansada de guerra

CURIOSIDADE: Publicado em 1972, o livro foi escrito nos meses de março a novembro, na cidade da Bahia. Sua 1ª edição, com 100.000 exemplares e 462 páginas, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, integrava a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, décimo nono tomo, volume XIX. Com a extinção da empresa paulista, após a quarta edição, em agosto de 1974, a Editora Record, do Rio de Janeiro, investe na condição de exclusividade. A partir da 5ª edição, de 1976, a editora passou a publicá-lo com as seguintes particularidades: 421 páginas, formato em 21cm, capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Calasans Neto, modinha de Dorival Caymmi e retrato do autor por Jordão de Oliveira. Foi traduzido em alemão (Viena-Áustria), espanhol, francês, inglês, italiano, tcheco, ucraniano. A obra literária de Amado teve inúmeras adaptações para teatro, televisão e cinema, usada também como tema de escolas de samba por todo o Brasil. Seus livros foram traduzidos em 55 países, em 49 idiomas, existindo exemplares em braille e em fitas gravadas para cegos. Destacam-se: O país do Carnaval (1931); Cacau (1933); Mar morto (1936); Capitães da areia (1937); A estrada do mar (1938); ABC de Castro Alves (1941); O cavaleiro da esperança (1942); Gabriela, Cravo e Canela (1958); Dona Flor e seus dois maridos (1966); Tieta do Agreste (1977).

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O grotesco herói sonhador

Escrito por Helga Rackel em Março 18, 2008

Dom Quixote
Dom Quixote e Sancho Pança, por Pablo Picasso

O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, livro de autoria do espanhol Miguel Cervantes (1547 – 1616), conta a história de um nobre chamado Alonso Quijano, de aproximadamente 50 anos, sem muitas posses, que adorava ler as antigas novelas de cavalaria medievais. Vibrava com os feitos dos heróis e os valores que defendiam: a honra, a justiça, a fidelidade ao rei e a uma dama etc. Observando que, no mundo o qual vivia, as pessoas não mais cultuavam esses valores, resolve tornar-se cavaleiro andante e prosseguir caminhos rumo a aventuras. Para isso, seguindo o exemplo dos grandes heróis, veste uma velha armadura de cavaleiro, herança de sua família; muda seu nome para Dom Quixote de La Mancha; batiza seu cavalo velho e magricelo de Rocinante; inventa uma linda donzela (a verdadeira mulher chama-se Aldonza Lorenzo, é uma camponesa feia, pobre e não o conhece), dando-lhe o nome de Dulcinéa del Toboso e transforma o vizinho gordo e bonachão, Sancho Pança, em seu escudeiro (espécie de ajudante de cavaleiro). Assim, o herói sonhador sai em busca das mais bizarras e perigosas aventuras, confundindo o real com o imaginário.

Analisando a obra sob alguns aspectos, destaca-se a crítica que o autor faz em relação aos estereótipos dos heróis cavaleiros, criando um personagem, na realidade, anti-herói. Dom Quixote é uma caricatura dos consagrados cavaleiros medievais. As trapalhadas e devaneios narrados nos capítulos desse livro fazem do cavaleiro andante um herói problemático, isto é, um herói humano, que não é perfeito em tudo. Ou seja, um homem cujas fraquezas e derrotas são bastante exploradas. Cervantes desmascara convenções e ideais daquela época, de modo risível e tragicômico. Por conseqüência, a reação afetiva do leitor diante da obra é de espanto e riso. O grotesco está presente em todos os textos.

A palavra grotesco vem de gruta, porão (em italiano: grotta). Entretanto, essa expressão foi sempre associada ao imperfeito e ao irreal. No final do século XVII, “grotesco” é definido por Richelet, como “aquilo que tem algo de agradavelmente ridículo”. Na mesma época, a Academia Francesa já o qualifica como “ridículo, bizarro, extravagante”. A palavra, no entanto, adquire significados associados ao desvio de costumes ou convenções culturais, quebrando as normas expressivas dominantes. Logo depois, no século XIX, é considerada como categoria estética.

Com base nesse conceito, verifica-se que o romance revela o grotesco crítico nas características e experiências de Dom Quixote. Por exemplo: o capítulo VIII, narra uma das mais conhecidas aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança: o ataque aos moinhos de vento. O cavaleiro andante em sua primeira aventura com o escudeiro, confunde os moinhos com gigantes poderosos. Acreditando nessa visão, o anti-herói, “louco de amarrar”, cavalga a toda velocidade, empunhando a lança contra os gigantes de sua imaginação. Seu escudeiro grita que se tratam de moinhos, mas ele não acredita. Porém, o pobre cavaleiro e seu cavalo Rocinante rolam no chão após o golpe.

As derrotas e a distorção do real vivenciadas por Dom Quixote, criticam até que ponto o ser humano pode viver sua própria realidade diante da que lhe é imposta como “normal” pela sociedade, sendo nocivo ou não à ela. A percepção da existência com desencanto, como a um jogo de máscaras, onde o grotesco está ligado à visão de quem sonha, devaneia. Um outro estado da consciência, sem perspectiva negativa.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CERVANTES, Miguel. AZEVEDO, Visconde de Castilho e. (Trad.). O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha. São Paulo: Nova Cultural, 2002.
SODRÉ, Muniz e PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

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