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Posts com Tag ‘convívio social’

O cômico reflexivo

Publicado por Helga Rackel em Dezembro 13, 2008

O quadro Negro, eu?! da extinta TV Pirata, apresenta-nos a típica figura do adolescente que não é compreendido pelos pais. O conflito é gerado após o jovem assumir que é negro – há uma breve pausa que gera um sentido ambíguo ao termo “assumir”. O pai, aterrorizado com a confissão do filho, apressa-se em convencê-lo do contrário. A mãe, preocupa-se em mostrar o futuro promissor para o rapaz que, segundo eles, não é negro e sim, moreno – porque “negro é crioulo”.

Satirizando o preconceito racial, o vídeo possui características do grotesco crítico presentes no figurino e no diálogo. Os atores, que na verdade são brancos, tem sua pele pintada de preto para dar vida aos personagens negros. A fala do rapaz, carregada de gíria e indignação, reafirma o estereótipo de que negro é malandro. A entonação da voz e a estética do ambiente demonstram a necessidade dos pais em manter a postura de acordo com os padrões da gente clara e educada. Essa idéia é bastante reforçada no momento em que o filho pede ao pai para “armar um pagode lá no fundo do quintal”, e este relaciona o conceito de pagode com: samba, gente fazendo zoeira, bebendo, cheirando fossa no meio da sala. Mais uma vez, o estereótipo negativo do negro é abordado.

O grotesco crítico é perceptível na mudança do nome do rapaz de Alvinho para James Brown, fazendo trocadilho com as cores branca e marrom. A revista que a mãe folheia, chamada Ebony (negro/ escuro, em inglês), é usada para mostrar a foto de Michael Jackson, que ficou “uma gracinha”, “tão clarinho”, “tão bonitinho” e convencer o filho de alisar o cabelo. A heterogeneidade mostrada faz alusão à discriminação racial pelos próprios negros. Os recursos estéticos aqui trabalhados são caricaturas da realidade.

Desmascarando as convenções da sociedade e ridicularizando seus ideais egoístas, o quadro do programa leva o público à reflexão, de modo risível. Eis, mais uma vez, o grotesco crítico. Os 2min41s podem ser analisados nessa perspectiva, sem exceção.


*Análise e texto feitos em parceria com o amigo Alan Rodrigues.

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Quem sabe, amanhã será um novo dia

Publicado por Helga Rackel em Junho 13, 2007

Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris usaram uma receita diferente dos tradicionais filmes americanos em Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA, 2006). O enredo apresenta a jornada de uma família repleta de problemas que se organiza para levar a filha caçula a um concurso de beleza. No desenrolar da trama, os personagens são detalhadamente expostos ao público em meio a crises existenciais, as quais estão envolvidas em sentimentos de raiva, amor, prazer, decepção, ganhos e perdas num panorama onde a indústria da beleza é sarcasticamente questionada do início ao fim.

A busca da conquista do eu, seja fútil ou útil, traz-nos uma rápida, mas profunda reflexão do que realmente é necessário para o homem sentir-se realizado: ser diferente ou mais um indiferente na sociedade. Comumente, os filmes americanos costumam trazer “receitas prontas” para degustação dos cinéfilos. Produções que vendem suas ideologias norte-americanas, com seus personagens padronizados – pessoas “normais” que exploram emoções da audiência, mostrando um mundo ideal para sonhar e acreditar em super-heróis, mocinhos(as) e bandidos(as), onde estes sempre são perdedores; onde o bem sempre vence o mal. Tramas que simplificam a realidade, revelando-nos um roteiro previsível e um final feliz. Sem falar do merchandising exposto em cada cena como atrações extras e excitantes do sabor de ter.

Entretanto, Pequena Miss Sunshine traz um roteiro que vai de encontro a essas ideologias. Apesar da personagem-mirim Olive ser tratada como o centro da história, os personagens restantes não perdem seu brilho; tendo uma participação conjunta e ao mesmo tempo individual quando suas particularidades são reveladas em cada cena. O irmão mais velho, que poderia ser o responsável e cuidadoso amigo da família, é um rapaz introspectivo, esquisito e assíduo leitor de Nietzsche, além de repudiar e odiar as atitudes do pai e dos presentes da casa com o seu voto de silêncio. Frustra-se ao descobrir que é daltônico, sendo impossibilitado de realizar o sonho de um dia ser piloto da Força Aérea. O avô, velho libertino, “birrento” e um tradicional “derrotado” viciado em crack, oposto dos convencionais vovôs risonhos, meigos e educados, tem assuntos mal resolvidos com seu filho, mas um bom companheirismo com a neta – ressaltando que era ele quem ensinava os passos de dança à Olive para a apresentação do concurso. Porém, ele morre no trajeto da viagem, sem poder contemplar sua “criação”. O pai, homem aparentemente feliz, escritor e defensor da auto-afirmação das “nove características de um vencedor”, é a caricatura crítica do homem, ou melhor, da sociedade que vive a busca frenética por vitórias e consumo de produtos de auto-ajuda como alívio e solução de todos seus problemas. A mãe, esposa fora dos padrões da dedicada dona-de-casa, cuida da família na medida do possível e ainda enfrenta preocupações com o irmão suicida. Este passa a ser o novo morador da casa após ter tentado o suicídio por conseqüência de desilusões amorosa e profissional, desenvolvendo laços de amizade com o sobrinho reprimido. Finalmente, tratando-se da personagem-chave, Olive é uma menina interessante em seu entusiasmo de amar e agradar a todos, com mesclas de ingenuidade (infantil) e maturidade (precocidade de uma pré-adolescente em convívio com adultos) que a fazem diferente das outras participantes do concurso, das crianças bem arrumadas e de sorrisos postiços, pois ela possui uma simplicidade que a torna bela ao público, mesmo sendo gordinha e usando óculos.

Divulgação).
Realidade ou utopia? (Foto: Divulgação).

Construindo as características peculiares de seus personagens, desde o figurino aos deleites puramente humanos, os diretores conseguiram passar para o público uma mistura de drama, comédia e ação com a desenvoltura dos textos e contextos caricatos, cômicos e carismáticos, em cenas sem glamour hollywoodiano, esteticamente “caseiras”. Uma história onde tudo começa “não muito bem” e termina “não muito bem”, mas, pelo menos, a harmonia familiar renasce – se é que um dia ela existiu. Fica claro o papel da personagem-mirim como o pivô das mudanças de atitudes dos outros personagens. As derrotas são admitidas; todavia, aceitas de uma forma pacífica e redentora por cada um, mostrando que apesar de todos os problemas do mundo estarem sobre suas costas, ainda é possível dar umas boas gargalhadas desses problemas e, quem sabe, amanhã será realmente um novo dia.

+ informação: Os pensadores Adorno e Horkheimer, ao apresentar-nos o conceito de indústria cultural, propõem uma visão crítica e revolucionária contra os meios de comunicação, cujo objetivo é alienar e narcotizar os espectadores – a massa, trazendo uma realidade fantasiosa e uma necessidade da busca em satisfazer-se com bens esteticamente atraentes e mediocremente “enlatados”, prontos para o consumo. Quanto mais é adquirido, mais é desejado. Como uma fuga do real – universo cercado de violência, medo, pobreza, decepções etc., a sociedade acredita que mudar é estar na moda, respeitando os padrões de beleza impostos pelos mass midias.

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Beleza na concepção de arte

Publicado por Helga Rackel em Junho 12, 2007

Beleza Americana

Retrato da complexidade de uma sociedade moderna (Foto: Divulgação)

Beleza Americana (American Beauty, EUA, 1999) é um filme cujo enredo transmite de forma surpreendente a complexidade da sociedade moderna. Nele, o diretor consegue mesclar realidade e irrealidade, verdade e fantasia, reflexão e devaneio típicos do convívio humano. Seus detalhes apresentam o comportamento do homem consigo e com os demais em meio às turbulências do “ser ou não ser” (ter ou não ter).

O filme aborda os últimos dias de um homem na idade de 42 anos, sua relação com a família, com a vida e a morte. Seu nome é Lester. Mora com a esposa Carolyn, corretora preocupada em manter um status de sucesso, e a filha Jane, uma adolescente “comum”. Ele mantém desprezo pela vida que leva até conhecer Ângela, uma típica garota americana em busca da perfeição do belo. A letargia do cotidiano é transformada em fulgor e desejo quando percebe que ainda pode reconquistar o perdido prazer de “ser”. Começa então sua busca pelo bem estar ideal para viver. Seu vizinho Ricky, adolescente, filho de pai militar, apaixona-se por Jane e é uma referência para a metamorfose de seu comportamento.

Há uma presença marcante de diversos contrapontos durante o filme. Ao compararmos as famílias, encontramos equilíbrio na relação dos vizinhos homossexuais, repressão na de Ricky, dispersão na de Lester. Situações que criticam as condições impostas pela sociedade, quanto à construção da imagem de uma família feliz e em harmonia consigo e com o mundo. Outro exemplo é a busca exagerada em conquistar e manter um padrão de beleza, fugindo do “comum”. Todavia, a simplicidade das coisas comuns é que instigam a pensar no que realmente é belo ao assistirmos Beleza Americana.

Ângela, uma tipica garota americana em busca da perfeição do belo

Imagem célebre do filme (Foto: Divulgação)

Mas… O que é belo? Remetendo aos variados conceitos de arte, não podemos limitar seu significado. Contudo, podemos dizer que analisar o belo é perceber a essência da mensagem, interpretar o ausente no presente e vice-versa, tornando o distante mais próximo da alma do receptor. Para Baumgarten, a beleza é o perfeito percebido pelos sentidos. Comumente, os sentidos são fortemente explorados durante todo o filme Beleza Americana. O contraste das cores branca e vermelha presentes nas cenas, por exemplo: o saco plástico branco “dançando” ao vento, em meio às folhagens secas do outorno e o muro de tijolos vermelhos; a personagem Ângela mergulhada em pétalas de rosas vermelhas numa banheira branca, como também a cena em que ela está seminua, envolvida pelas mesmas pétalas no teto do quarto de paredes brancas.

A fotografia, a trilha sonora, o roteiro e a atuação dos atores contribuem ricamente com a percepção da beleza e da arte no filme. Mesmo diante dos problemas, das decepções e da realidade “nua e crua” expostas nas cenas, a beleza segundo o ponto de vista do adolescente Ricky e da narração de Lester, é muito mais do que podemos ver, transcende do objeto em questão e alcança o subjetivo omitido ao simples olhar.

+ informação: o nome Beleza Americana refere-se a uma flor  que se parece com a rosa, mas não tem cheiro e nem espinhos; nasce somente no continente americano.

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