Duo Amore
Escrito por Helga Rackel em Janeiro 21, 2008
Seu amor, mais forte do que a morte, sufocava-o. Não sabia como expressá-lo. Um gesto, um beijo, um abraço, uma frase não seriam o suficiente para provar um sentimento tão puro. Cabisbaixo, olhar melancólico, sorriso enturvado, João matutava ao vento, sentado na cadeira de balanço – herança da avó. O vermelho-escarlate da “ditosa cadeira dos pensares” se assemelhava ao rubor do coração temeroso do rapaz. Casara-se novo com a jovem Madalena, carinhosamente chamada de Mada pelos íntimos. Cabelos longos e olhos maliciosos aliados à voz mansa da “caçula do pai”, chamaram a atenção do rapaz em meio aos vizinhos que dançavam o Baião Porreta do Zé, ícone das feirinhas de troca-troca do bairro José Walter. Há 2 anos, a jornada sentimental do pacato João iniciara num simples olhar pedinte de sua amada Madalena. Como relembrar o passado sem se preocupar com o futuro?
No dia anterior à sina, o jovem marido vai à feira comprar as “prediletas” da esposa: maçãs. Sua preferência era pela mais vermelha. Atento ao gosto da querida, o rapaz escolhe cada maçã com cuidado, imaginando a cena em que os lábios corados e carnudos da moça tocariam a fruta. Ele estremece ao sentir a chama do amor verdadeiro acesa em seu coração. Após pagar o feirante, João passeia os olhos pelo que acontece ao seu redor, contemplando cada rosto presente naquela feira tão movimentada; lembrando de quando ele e Madalena faziam sua primeira feira, o dia em que ela confessou seu gosto pelas “prediletas”. Já é noite. Mada, mesmo cansada, ao chegar em casa e encontrar seu marido à espera, deitado sobre a cama coberta com lençol de cetim branco, ladeado pelas maçãs bem vermelhas e fresquinhas, não resiste ao pedido ardente e ingênuo de seu marido. Permite ser amada.

Manhã de segunda-feira, o dia da sina. Feliz por mais uma noite de carícias e juras ao lado de sua querida e amada esposa, João acorda disposto a fazer uma prova de amor, mas ainda não sabe como. Deixa-a dormindo, sai devagarzinho até o banheiro, toma banho e se arruma para sair mais uma vez à procura de um emprego. O dia começou bem: o rapaz consegue a vaga de segurança de uma transportadora. Há meses, ele aguardava essa oportunidade. Reservando a novidade para mais tarde, momento em que poderá encontrar Mada em casa, João chega à garagem dos transportes da empresa, onde fica também o escritório de seu chefe. Já estava com tudo pronto. Porém faltava apenas agradecer a oportunidade àquele que lhe ajudou. Enquanto isso, conferia seus objetos de trabalho: o porrete, a arma preta com detalhes em cinza e o cartucho de balas. Temeroso por tocar uma arma de fogo pela primeira vez, ele tinha seus olhos fitos no calibre 38. Mistura de medo e poder. Após alguns minutos de espera, o novo empregado apresenta-se ao chefe e lhe agradece pela confiança e presteza.
Ricardo conheceu Madalena no dia em que a cadeira de balanço quebrou. Morando no mesmo bairro, ele costumava passar todos os dias de manhã em frente à casa do casal, a caminho do trabalho. Certa vez, como de costume, ao passar na calçada da casa de muro e paredes brancos com portas e janelas vermelhas, o chefe de transportes e segurança da Empresa Bene Dito presencia a cena em que a amada de João, ao sentar, vira a cadeira de balanço e cai. Imediatamente, o vizinho oferece ajuda e percebe que a borracha de uma das pernas da cadeira vermelho-escarlate estava solta - o que provocou a queda. Logo o jovem marido ficou sabendo do acontecido, convidou o vizinho para tomar um cafezinho em agradecimento. João, ajudante de pedreiro na época, passava a maior parte do tempo fora de casa; mas era atento a cuidar de Madalena. Pela amizade, a querida esposa torna-se acompanhante da mãe de Ricardo. Assim, unia o útil ao agradável: passara a ter uma rotina diferente ao mesmo tempo em que praticava o dever de uma boa cristã em ajudar o próximo.
Ansioso para encontrar a amada, João despede-se do novo chefe e corre para pegar o ônibus das 12h45min. Na metade do caminho, percebe que esqueceu a boina da farda no escritório. Volta depressa, torcendo para que dê tempo de apanhar o coletivo, e depara-se com Mada recebendo um beijo de Ricardo. Naquele horário, a garagem da transportadora era muito movimentada. O jovem marido não tinha certeza do que via. Então aproximou-se sem que o casal de amantes percebessem, flagrando o mesmo olhar pedinte de Madalena, recordação do dia em que se conheceram, direcionados a seu chefe e vizinho. Deveria se vingar ou esquecer e contemplar a amada com seu perdão remissor, dando-lhe uma prova de amor a qual instigasse o arrependimento no seu coração? Em poucos segundos, João decide fazer as duas coisas. Saca a arma, atira em Ricardo e, logo depois, comete suicídio. Dois corpos inertes e uma mulher. A prova de amor cumprida.
E todos ali presentes, funcionários e transeuntes que viam a cena do lado de fora, não sabiam se Madalena chorava pelo amante ferido ou pela morte do marido.
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