Quem sabe, amanhã será um novo dia
Publicado por Helga Rackel em Junho 13, 2007
Os diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris usaram uma receita diferente dos tradicionais filmes americanos em Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA, 2006). O enredo apresenta a jornada de uma família repleta de problemas que se organiza para levar a filha caçula a um concurso de beleza. No desenrolar da trama, os personagens são detalhadamente expostos ao público em meio a crises existenciais, as quais estão envolvidas em sentimentos de raiva, amor, prazer, decepção, ganhos e perdas num panorama onde a indústria da beleza é sarcasticamente questionada do início ao fim.
A busca da conquista do eu, seja fútil ou útil, traz-nos uma rápida, mas profunda reflexão do que realmente é necessário para o homem sentir-se realizado: ser diferente ou mais um indiferente na sociedade. Comumente, os filmes americanos costumam trazer “receitas prontas” para degustação dos cinéfilos. Produções que vendem suas ideologias norte-americanas, com seus personagens padronizados – pessoas “normais” que exploram emoções da audiência, mostrando um mundo ideal para sonhar e acreditar em super-heróis, mocinhos(as) e bandidos(as), onde estes sempre são perdedores; onde o bem sempre vence o mal. Tramas que simplificam a realidade, revelando-nos um roteiro previsível e um final feliz. Sem falar do merchandising exposto em cada cena como atrações extras e excitantes do sabor de ter.
Entretanto, Pequena Miss Sunshine traz um roteiro que vai de encontro a essas ideologias. Apesar da personagem-mirim Olive ser tratada como o centro da história, os personagens restantes não perdem seu brilho; tendo uma participação conjunta e ao mesmo tempo individual quando suas particularidades são reveladas em cada cena. O irmão mais velho, que poderia ser o responsável e cuidadoso amigo da família, é um rapaz introspectivo, esquisito e assíduo leitor de Nietzsche, além de repudiar e odiar as atitudes do pai e dos presentes da casa com o seu voto de silêncio. Frustra-se ao descobrir que é daltônico, sendo impossibilitado de realizar o sonho de um dia ser piloto da Força Aérea. O avô, velho libertino, “birrento” e um tradicional “derrotado” viciado em crack, oposto dos convencionais vovôs risonhos, meigos e educados, tem assuntos mal resolvidos com seu filho, mas um bom companheirismo com a neta – ressaltando que era ele quem ensinava os passos de dança à Olive para a apresentação do concurso. Porém, ele morre no trajeto da viagem, sem poder contemplar sua “criação”. O pai, homem aparentemente feliz, escritor e defensor da auto-afirmação das “nove características de um vencedor”, é a caricatura crítica do homem, ou melhor, da sociedade que vive a busca frenética por vitórias e consumo de produtos de auto-ajuda como alívio e solução de todos seus problemas. A mãe, esposa fora dos padrões da dedicada dona-de-casa, cuida da família na medida do possível e ainda enfrenta preocupações com o irmão suicida. Este passa a ser o novo morador da casa após ter tentado o suicídio por conseqüência de desilusões amorosa e profissional, desenvolvendo laços de amizade com o sobrinho reprimido. Finalmente, tratando-se da personagem-chave, Olive é uma menina interessante em seu entusiasmo de amar e agradar a todos, com mesclas de ingenuidade (infantil) e maturidade (precocidade de uma pré-adolescente em convívio com adultos) que a fazem diferente das outras participantes do concurso, das crianças bem arrumadas e de sorrisos postiços, pois ela possui uma simplicidade que a torna bela ao público, mesmo sendo gordinha e usando óculos.
Construindo as características peculiares de seus personagens, desde o figurino aos deleites puramente humanos, os diretores conseguiram passar para o público uma mistura de drama, comédia e ação com a desenvoltura dos textos e contextos caricatos, cômicos e carismáticos, em cenas sem glamour hollywoodiano, esteticamente “caseiras”. Uma história onde tudo começa “não muito bem” e termina “não muito bem”, mas, pelo menos, a harmonia familiar renasce – se é que um dia ela existiu. Fica claro o papel da personagem-mirim como o pivô das mudanças de atitudes dos outros personagens. As derrotas são admitidas; todavia, aceitas de uma forma pacífica e redentora por cada um, mostrando que apesar de todos os problemas do mundo estarem sobre suas costas, ainda é possível dar umas boas gargalhadas desses problemas e, quem sabe, amanhã será realmente um novo dia.
+ informação: Os pensadores Adorno e Horkheimer, ao apresentar-nos o conceito de indústria cultural, propõem uma visão crítica e revolucionária contra os meios de comunicação, cujo objetivo é alienar e narcotizar os espectadores – a massa, trazendo uma realidade fantasiosa e uma necessidade da busca em satisfazer-se com bens esteticamente atraentes e mediocremente “enlatados”, prontos para o consumo. Quanto mais é adquirido, mais é desejado. Como uma fuga do real – universo cercado de violência, medo, pobreza, decepções etc., a sociedade acredita que mudar é estar na moda, respeitando os padrões de beleza impostos pelos mass midias.
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Mídia e Arte « Verblogando disse
[...] na simplicidade daquela apresentação artística, citou os filmes Beleza Americana (EUA, 1999) e Pequena Miss Sunshine (EUA, 2006) como exemplos para o conceito de estética na arte cinematográfica (crítica ao [...]